Estou cansada de ouvir “conselhos” promissores sobre o quê ou quem, ou como eu deveria ou devo proceder. Há uma mulher em mim que sabe exatamente o que não quer…O que quer, quem é que sabe? As pessoas têm metas, objetivos, traçam suas vidas buscando algo que as tornem mais importantes, que as façam sentir-se mais participativas, mais parte desse mundo GLOBALIZADO, cheio de livros de auto-ajuda; de como pais inteligentes podem ser modelos para os filhos, de como ganhar 1 milhão em 10, 20, 30 anos…etc. Só se lêem best-sellers impulsionando a uma busca incessante de meios de progredir.
“ Estou farto do lirismo comedido…”, já diria o nosso Andrade, nos idos de 20. Sabia ele sim do que estava falando. Corre-se atrás de fórmulas perfeitas, do trabalho perfeito, do profissional do ano, da modelo über, e encontram-se apenas uns cinco (?)por cento da população com acesso a tais regalias. Máquinas de fazer o mundo girar incessantemente. Não, não sou contra essa civilização moderna. Eu vivo nela, a usufruo, não por meios que eu provi, mas que certamente colaborei intensamente em meus cinqüenta anos de vida para que se consolidasse.
Estou mais feliz com a vida que tenho? Não sei dizer. E se alguém ler o que escrevo, vai saber que minhas mazelas podem descolorir o dia. Mas são minhas. E talvez de muitas mulheres e homens que por medo de se sentirem fracassados escondem-se atrás de máscaras e enfrentam horas de terapia e caixas de tarja preta, vermelha, agora até amarela para darem conta de tudo o que a sociedade moderna, civilizada, globalizada exige. Até Jesus Cristo que foi estigmatizado, hoje encontra-se mercantilizado.
Deixem-me ser o que sou. Com meus gritos internos, minhas feridas abertas, meu sangue latejando. Sentindo a dor das mortes violentas, dos estupores causados pela queda de um avião, pelo menino destroçado numa corrida sem nexo pelas ruas de uma grande metrópole. Dêem chance de eu confrontar-me com as desigualdades, com as diversidades, com a possibilidade de que em 5(?) bilhões de anos, nosso Sol se apagará. Sim, pois está cientificamente comprovado que é isso que vai acontecer.
A miséria que empurra um casal para dentro de um cano de esgotos, sobrevivência última, quase faz com que eles percam a guarda da criança. Mas essa criança tem pai e mãe. E as outras? Aquelas que só tem um macho e uma fêmea como modelo e às vezes nem isso? Onde está esse mundo de arranha-céus, que não cede um quinhão à educação? Adquirir, conglomerar, tornar-se a empresa mais forte do mundo. Joint-ventures? Traduzam-me. Para mim, significa esse amontoado de apenados, encurraladados como animais indo ao matadouro. E de lá fazendo, tramando, construindo o seu próprio império à margem do que se tornou o modelo de tudo. Quem não tem nada a perder, vai se preocupar com o quê? Tornar-se um fiel seguidor dos Dez Mandamentos ou de alguma lei que foi desenhada por engravatados, a maioria ignorantes , analfabetos não literalmente ,das causas que levam à destruição, ou sendo mais específica, nem sequer foram apresentadas ao mundo real?
Mundo real! Digam-me vocês, senhores do conhecimento, legitimados ou não por diplomas, pós-graduações, PHDs, MBAs, etc, filósofos, psicólogos, doutores da ciência e do saber o que entendem por Paraíso? Por Terra-Prometida, por igualdade social, por EDUCAÇÃO e SAÚDE para todos?
E você também que sai todo dia de casa para o seu trabalho, cumprindo as tarefas do melhor modo possível para que o seu emprego não seja abocanhado por algum colega que se apressou em estar mais cedo, formulou a maneira mais correta de trazer mais ganhos ao senhor do seu destino, sim, porque o nosso empregador, hoje é o o nosso dono. Ele faz e desfaz contratos, contrata e demite com a mesma velocidade com que um vídeo de sexo com uma modelo já mais do que falada circula pela internet. Esse é o nosso tempo, essa é a nossa história, esse é o nosso preço. E não me digam que não temos um… Nos vendemos a cada dia, a cada segundo, a cada momento em que queremos nos tornar algo que não somos. Ou que desejamos apresentar ao público.
Hoje mapeia-se DNA. Descobrem-se possíveis gens que poderiam tornar este ou aquele indíviduo propenso a tais e tais comportamentos. Bem , lamento entender que só foram premiados nessa cadeia, o ínfimo de uma população que beira quantos bilhões mesmo? Já sete? Não sei, muda a cada instante. Porque esses são os bem-aventurados, esses são os que têm três refeições por dia ( mínimo) esses têm casa, acesso à educação, acesso à saúde, acesso à água. E, ainda dentro deste contexto, há os que desafiam todo e qualquer prognóstico de virem a se tornar pessoas de bem. Sim, eu sou uma “pessoa de bem”. Como você sabe? Como você sabe que eu não cometo crimes, que não burlo regras de confiabilidade, não desrespeito as leis que homens ou mulheres com uma situação privilegiada tão ou melhor que a minha definiram como capazes de manter a ordem social? Não você não tem como saber. Porque os meus crimes são fortuitos, às sombras, escondidos atrás de janelas e cortinas e não vêm a público.
Não estou esmolando nas sinaleiras, não estou nas filas do SUS, não estou arrastando crianças penduradas em carros. Mas o meu instinto é de gritar, de vociferar, dizer que muita coisa aqui dentro dói e que não vejo saída. Todos vêm, todos aconselham, todos têm uma fórmula para que os meus problemas se resolvam. Basta eu querer. Basta eu me empenhar. Basta eu aproveitar este potencial que existe em mim (rsss) e tudo pode ser diferente.
BASTA! Chega de hipocrisia. Somos seres irracionais, na medida em que ao invés de promovermos a prevenção, a integração, agruparmo-nos em comunidades, dividirmos nossos problemas, sermos solidários sem sermos canibais, sem olhar para o bastardo recém-nascido e para a miserável mãe pensando que ela poderia ter evitado trazer ao mundo mais esse futuro sem futuro algum. Se eu sou dona do conhecimento, se eu tive acesso a tais e tais benesses, minha obrigação é compartir. Mas eu não faço isso. Muitos fazem, sei disso. Muitas pessoas doam verdadeiras fortunas para a melhoria do mundo. Muitos doam seu tempo. ONGS proliferam. Mas a cada dia, mais guerras, mais desastres ecológicos, mais mortes, crimes aparentemente sem sentido. Aí, eu me questiono: Porque não tem dado certo? Porque os anos passam e e a tranqüilidade de deitar na grama à noite, no meu vilarejo, escuro, apreciar as estrelas, adivinhar quem poderia estar nos observando lá de cima, se tornou tão distante e ao mesmo tempo tão assustador? Porque todos sabemos que a nossa vida está sendo vasculhada milimetricamente por meios criados aqui mesmo pelos nossos parceiros… Não se dá um passo sem que um olho mágico, globalizado, direcionado nos persiga. Somos reféns de nós mesmos. E como todos os que têm medo, a profecia está sendo cumprida. Muitos vão querer entrar, poucos passarão pela barreira. E isso foi dito há mais de 2000 anos. Deixem-me no meu canto, há mais gente precisando de socorro. Eu tenho um jeito de me livrar da dor. Mas quantos podem dizer o mesmo?
Cida Piussi/ PAlegre-17-02- 2007
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